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quarta-feira, 17 de março de 2010

Começa a turnê brasileira do rei do Blues


RIO - Aos 84 anos, já sem o vigor físico de outrora, B.B. King talvez esteja se entregando com mais gosto a seu conhecido lado showman, em detrimento do estupendo guitarrista que sempre foi. Mas o público que lotou o Vivo Rio ontem à noite para prestigiá-lo não estava nem aí. Enfeitiçado, interagiu o tempo todo com o rei do blues, riu de suas (muitas) piadas, pediu música aos berros, aplaudiu efusivamente do início ao fim e terminou a noite feliz - assim como, aparentemente, o próprio músico, que não se cansou de elogiar o entusiasmo da plateia e, mais especificamente, a beleza das mulheres brasileiras.

A noite começou com um atraso de apenas 15 minutos com relação ao horário programado, ainda sem B.B. King no palco, dominado apenas por sua ótima banda. Durante dois longos temas instrumentais, os oito músicos - quatro sopros, guitarra, baixo, teclados e bateria - enlouqueciam os roadies pedindo ajustes de som. Tudo acertado, o guitarrista entrou sob ovação da plateia, caminhando lentamente (e não sentado numa cadeira de rodas, como na entrevista coletiva que ele concedeu na última segunda-feira). Enquanto se dirigia à sua famosa guitarra Lucille, já a postos no centro do palco, jogava palhetas para a turma do gargarejo. O instrumento, no entanto, mal seria utilizado na primeira música que ele cantou, "I need you so", um clássico do seu repertório. Mesmo assim, sua voz rascante empolgou a plateia.

A partir daí, já com os fãs definitivamente nas mãos, B.B. King pintou e bordou. Fez troça consigo próprio ao dizer que homens de sua idade se consultam com o Dr. Viagra, brincou de flertar com uma animada moça na segunda fila, arriscou dancinhas (sempre sentado), disse ficar possesso com o modo como o rap trata as mulheres, fez piadas, piadas e piadas. Quando resolvia dedilhar Lucille, porém, lá estava o bom e velho Riley Ben King, o inimitável B.B. King de sempre. O set list foi recheado de clássicos, de uma esfuziante leitura de "Let the good times roll" (hit do repertório de Ray Charles e Louis Jordan), passando por "Woke up this morning (My baby's gone)", "Key to the highway" (que B.B. King gravou com seu discípulo Eric Clapton no disco "Ridind with the king", de 2000) e "When love comes to town" (composição dos irlandeses do U2), entre outros. Em um set sem os sopros, com o guitarrista e o baixista sentadinhos ao seu lado, B.B. King voltou a deitar falação antes de atacar de "You are my sunshine" - que ele dedicou às mulheres e que contou com um coro espontâneo da plateia. Seguiram-se, então, outros clássicos, como "Guess who" e "Rock me baby", esta última com B.B. King comandando o público, que se esgoelava em uníssono.

O show se encaminhava para o fim, e o músico não fez por menos: já com os sopros de volta, mandou a balada "The thrill is gone", um de seus maiores hits, e fechou com chave de ouro com o tradicionalíssimo "When the saints go marching in", em interpretação eletrizante. Foi que faltava para que dezenas de pessoas que "dançavam" presas às cadeiras se levantassem e fossem para a beira do palco, de onde o guitarrista voltou a distribuir palhetas. Com duas horas de farra contadas no relógio, o músico se levantou, meteu um chapéu panamá na cabeça e um sobretudo preto por cima de seu elegante terno vermelho e deu a apresentação por encerrada, certo do dever cumprido.

Fonte: O Globo


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